domingo, 23 de abril de 2017

23:44

Tenho ciúme do cigarro que você fuma tão distraidamente
e das roupas que tocam a sua pele
e da água que percorre as suas entranhas.
Tenho ciúme de quem compartilha dos seus lençóis
e respira o mesmo ar que você.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

02:02

A sensação é de sufoco, como se eu fosse engasgar com as lágrimas que jorram dos olhos, que causam uma bola na garganta e que estufam meu peito até que ele esteja prestes a explodir. 

É um sufoco que nada parece aliviar. Eu leio os poemas, eu penso nessas mulheres e eu só imagino um futuro parecido para mim. "Vai chegar uma hora que eu não vou aguentar", é a frase que eu mais digo para as pessoas, com a esperança de um oferecimento de ajuda. Ajuda essa que nunca chega. 


terça-feira, 1 de novembro de 2016

Clichê

É noite de sábado e pela primeira vez em muitas semanas ela não saiu. Deixou seus dois gatos com a melhor amiga, disse que passaria o fim de semana na casa de um dos seus amantes. Comprou uma garrafa de vinho. Ela não gostava muito de vinho, mas parecia a bebida adequada para aquela noite. Olhou no relógio, quase 22h. Pensou em colocar "10:15 Saturday Night" do The Cure, mas não quis ser tão clichê. Na mesinha da sala estavam livros da Sylvia Plath e da Anne Sexton, nisso sim ela se permitiu ser clichê. Releu alguns dos poemas enquanto tomava o vinho. Rasgou todos os cadernos que tinha, folha a folha, não queria deixar nenhum resquício de seus pensamentos para trás. Escreveu uma carta para os pais e uma para uma de suas amigas. Escreveu uma para ele, mas se deteve. Ela nunca tinha dito nada daquilo para ele, por que agora? Não faria diferença alguma. Ela sempre quis ter uma banheira e agora tinha. Ela a encheu até quase transbordar, não muito quente, fazia muito calor naquela noite. Pegou a garrafa de vinho, a taça, entrou na banheira e escutou a água respingando no chão. Quando o vinho acabasse, ela tomaria a decisão. Repensou todos os seus fracassos, todos os amores não correspondidos, todas as frustrações. Por um segundo pensou se deveria apagar suas redes sociais, sempre teve pânico de redes sociais fantasmas. Pensou nos seus livros, nos ingressos de cinema e de shows, no tanto de dinheiro que gastou com besteiras. A garrafa estava quase no fim, mais uns goles e teria que se decidir. Ela nunca tinha saído do país, conhecia uns poucos estados e cidades. Pensou nos livros que não tinha lido, nos filmes que deixara baixando no computador. 32 anos não tinham sido o suficiente para esse monte de coisas. Acabou o vinho. Começou a pensar no tanto de água que estava desperdiçando enchendo a banheira daquela forma, até que o barulho da chuva interrompeu seus pensamentos. Nada fazia sentido, talvez nada viesse a fazer sentido, mas como disse aquela escritora, é preciso ir até o fim. Outro escritor também disse algo assim, talvez fosse hora de lançar os dados. Tomou os últimos goles do vinho, tirou a tampa do ralo e observou a água escorrendo pelos canos abaixo. Ela se levantou calmamente, se enxugou, colocou uma roupa limpa. Guardou a gilete de volta no armário. Foi até a cozinha, tomou água e comeu pão, na esperança de que isso cortasse o efeito do vinho. Mandou mensagem para a amiga dizendo que pela manhã iria buscar os gatos, havia mudado de planos. Olhou no espelho e disse para si mesma "Ainda não".

terça-feira, 25 de outubro de 2016

22:13

Eu me coloco em situações das quais não sei sair. Nem o porquê de me colocar nelas, talvez para ocupar a cabeça com um tempo que deveria ser reservado para mim mesma. Não pensando em mim mesma, não enxergo os fracassos, não me sinto uma farsa. Todo instante não preenchido por tarefas desnecessárias é instante de dor, de lágrimas, de recordação de mentiras. Todo instante é reflexo de fracasso.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

23:41

Eu tento organizar minha vida da melhor maneira possível. Eu marco mil coisas com antecedência pra não chegar no dia e eu estar sozinha olhando pro teto e lidando com meus pensamentos. Eu me organizo para pagar as contas em dia e quando me dou conta tudo desandou. Até organizar leituras e filmes pra ver me parece uma tarefa difícil. Não consigo nem separar os lançamentos de discos pra ouvir. Brinco que devo ter alguma coisa de virgem no meu mapa astral, mas duvido, se tivesse eu conseguiria organizar alguma coisa efetivamente.

domingo, 24 de julho de 2016

19:42

Todos os domingos são iguais. Lembro de um em 2008, esperando notícias dele, ouvindo Cat Power e ficando triste pela manhã de segunda e o metrô lotado. Não tenho mais esse desespero da segunda, agora ele é de todos os dias. De todos os dias acordar e olhar para o celular em busca de mensagens que não chegarão. Ou de mensagens que eu queria que parassem, mas estão sempre ali. Uma vida de confusões, mas de domingos iguais.

terça-feira, 19 de julho de 2016

18:52

Uma vez você perguntou se alguns dos posts aqui eram sobre você. Desconversei.

Esses dias eu terminei de ler um livro e queria conversar com você a respeito. Nunca demos muito certo, mas fica essa curiosidade, essa sensação do "o que teria sido".

Minha vida é um grande "o que teria sido".